Acredito que o título possa suscitar visões deslumbrantes aos mais imaginativos: um mulherão de cabelos compridos apanhados em rabo de cavalo, pernas longas, olhos claros e tez escura, curvas de perder e perder e perder. Um fato macaco aberto até ao rego dos seios grandes e uma ferramenta na mão. A cara estará suja de óleo e, ao ouvir-se a voz rouca mas sexy, um sábio conhecimento sobre carros e motas e todas aquelas coisas sobre as quais o verdadeiro macho adora falar sairá como melodia. Aahh, a mulher perfeita! E "boua".
Mas a verdade é que existem mecânicas diferentes. E é, com imenso prazer, que vos apresento essa gama inovadora dessas coisas andantes.
A mecânica é uma mulher que gosta de dar nas vistas. Não sei é se consegue, porque duvido que tenha observadores capazes de levantar o pau. Normalmente, apresenta-se como uma macha, isto é, aparenta ser um homem com maminhas. Ou mamões! Corta o cabelo de forma estranha, mais comprido de um lado do que do outro e espeta com gel do mais manhoso a parte curta. Metade punk (yyeeaahhhh), metade puto de dez anos que ainda não sabe o que é fixe. Ah, o gel tem já aquelas coisas brancas e nojentas que, juntamente com a caspa, transformam a cabeça num boneco de neve alternativo. As orelhas costumam estar cheias de brincos e piercings daqueles com picos e fluorescentes, muito vistosos, claro. As argolas pequenas cheias de pus perdem-se no meio de tantas outras já ferrugentas. As que optam por poucos furos, apresentam bugigangas com formas de bichos - moscas, aranhas, cobras. Ao pescoço o colar: de ouro ou prata com a mítica cruz ou, então, um tipo atacador com o símbolo da Nike ou com uma caveira. Também muito típico desta estirpe é o facto de não fazer o buço com muita frequência, o que torna a parte superior do lábio de cima uma espécie de quadro com pontos negros. Mas, mais de perto, são mesmo pêlos pretos pontiagudos e pequeninos. [Atenção, meninos, que picam! E para os que gostam de beijar a lamber, atenção aos piquinhos na língua que se tornam desconfortáveis!] Igualmente maravilhoso, não cuidam muito da higiene dentária, pelo que apresentam réstias dos diversos jantares da semana. E sorriem todas contentes, numa espécie de "eu poupo comida e orgulho-me disso!".
No que diz respeito à indumentária, a coisa varia de mecânica para mecânica. Há as que são mais discretas e usam coisas normais e adequadas ao tamanho do corpo, mas depois há as que exageram e tentam parecer porreiras. Por exemplo: usam calças justas e rasgadas e meio tingidas com um cu que talvez só se safe na banheira e salientam bem as gordurinhas com camisolas justas, de licra. Ou então usam as Naiki de fato de treino ou as Adidas com quatro riscas. O cinto tem espinhos, como é evidente, e dos bolsos caem correntes que roçam o joelho. Se ousarem usar luvas, só calçam as que não têm dedos e põem os anéis por cima. Nos pés, ou sapatilhas enormes (normalmente de marca) ou botas da tropa, Arkansas ou Doctor Martens (só de me lembrar de que tenho umas tão preciosas... aahh). Carteira? Qual quê! Uma saquita da Eastpack à cintura ou uma Lacoste ao peito, em jeito de "guna".
Mecânica que se preze fala alto! Mal e alto! Com sotaque bacano e alto! Faz questão de ser a líder do seu grupinho de gajas - uma mecânica para cada cinco, vá! - e protesta contra tudo e todos, só ela tem razão. Senta-se de perna aberta nas escadas, fuma com ar de má e a tentar fazer bolinhas que se assemelham a gestos bucais mais preversos; cospe para o chão depois de puxar a merda toda da garganta e vangloria-se da sua estupidez. Quando se pinta, ou atira coisas pretas para os olhos, fala mais alto porque está má! E é nesses dias que vai para a noite, tentar engatar homens mais homens do que ela (por vezes, tarefa difícil!), falando de futebol mal e porcamente e atirando ao ar umas marcas de carro porreiras e na moda, enquanto emborca cerveja compulsivamente - a espuma chega mesmo a pingar pelos queixos.
Mas, o mais importante de tudo, não se droga. Isso não, é para estúpidos! Fala alto, mas nada de charros.
Ou seja, e como dizem dois sábios da televisão nacional (Quim Roscas e Zeca Estacionâncio): "cuidado com aquelas moças que têm cara de mecânico!". Vá-se lá perceber porquê...
